quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ARGUMENTO DA ÓPERA-ROCK "PALHOSTOCK!"















PALHOSTOCK – ARGUMENTO

PARTE I (O SURGIMENTO DA IDÉIA, PREPARAÇÃO DO FESTIVAL)

1- 1974, PALHOÇA.
A casa de Edgard era um rancho no qual havia uma garagem conhecida como “O ESTÚDIO”. Lá reunia-se a juventude, ávidos por novas experiências e por liberdade. Encontravam-se ali para ouvir músicas; naquela época as novidades chegavam com atraso e os LPs eram esperados com ansiedade e o rancho de Edgard era um dos informais locais onde ouvia-se rock’n’roll em decibéis não-recomendáveis, entre outros excessos. Naqueles anos de ditadura aqueles encontros tinham involuntariamente uma aura subversiva.

2- A IDÉIA
Num desses encontros, enquanto Peninha – na época estudante de História e um irrequieto agitador cultural – decorava o estúdio de Edgard, Jacob teve a idéia que viria a mudar seus destinos:
- Que tal fazer um festival de rock?
Inspirados pelo Festival de Woodstock, realizado em 1969, os três jovens idealizaram em conjunto um festival para a celebração da paz e do amor.

3 – CHUTANDO O BALDE
Uma coisa é curtir o Movimento, outra coisa é fazer o Movimento. Os três idealizadores tinham emprego fixo e viviam momentos delicados em suas vidas pessoas: Edgard era contabilista em uma empresa de Biguaçú. Jacob e Baldicero trabalhavam em um banco. Além disso Edgard era recém-casado e Rita, a companheira de Jacob, estava grávida da primeira filha do casal. Viviam um momento decisivo: optar pela estabilidade ou arriscar tudo em busca de um sonho.
Valeu a ousadia dos três, que largaram seus empregos, venderam carros e motos para realizar um sonho.


4- O LOCAL
Com o projeto em mãos os três amigos ofereceram o projeto a Prefeitura de Florianópolis mas não obtiveram apoio. Jacob e Edgard lembraram do prefeito de Palhoça, Odílio, um novo prefeito com jeito peculiar, que entre outras coisas dava expediente na Praça.
O prefeito prontamente aderiu à idéia. Deixaria toda a estrutura da prefeitura a disposição dos rapazes, fariam o palco, material gráfico, cartas ofícios, uma sala para a organização – só não poderiam ajudar com $$.
O local escolhido foi o campo do Guarani, recém inaugurado, um grande espaço aberto, com cerca de proteção, cercado por um rio.
Parecia ser o local perfeito.
O “I Festival de Música Pop da Palhoça” era uma realidade agora.

5 – REPERCUSSÃO
A Idéia logo caiu no gosto dos meios de comunicação e dos artistas, que viam no Festival muito mais que um simples encontro de jovens, percebiam que ali, de certa forma, estavam fazendo história. Era o encontro de uma geração.
E no boca-a-boca o festival ganhou um apelido: Palhostock!

6 – ESTÁ FALTANDO O $$
O palco estava sendo construído, os cartazes foram confeccionados e espalhados aos quatro cantos, a Imprensa já noticiava o festival, faltava apenas dois detalhes importantes em se tratando de um festival de música: AS BANDAS E O SOM.
Baldicero conseguiu uma audiência com o governador mas não obteve nenhum apoio. Resolveram então vender suas coisas: carros, motos, aparelhos de som e assim conseguiram juntar a verba para viabilizar o Festival.
Foram contratadas bandas do Rio Grande do Sul (destaque para “Os Almôndegas” e “Bixo da Seda”), do Paraná (“A Chave” e “Movimento Parado”), além de bandas catarinenses e de músicos como Luiz Henrique Rosa.
A empresa contratada para sonorizar o evento foi a Transasom, de São Paulo – a mesma empresa que havia feito o show do Alice Cooper no Estádio do Pacaembu. Era um som potente, no material publicitário dizia: “15.000 Watts de som!”

7 – O APOIO DO EXÉRCITO
Como nos anos mais duros da Ditadura Militar ocorreu um Festival reunindo milhares de jovens cultuando a Liberdade e desafiando tabus? A resposta talvez deva-se a uma certa ingenuidade dos militares (o Poder Público tratava o festival como uma “festa de bairro”). Uma prova disso é o convite feito à banda do exército para abrir o Festival. Convite aceito o festival ganhou “carta branca” para ser realizado – que mal poderia haver em um festival que a própria banda do exército irá participar?!...
A abertura do Festival foi uma das cenas mais marcantes e surreais. A banda do exército dando a volta olímpica, regida e seguida por milhares de hippies cobertos de flores e cores em plena ditadura. O que demonstra que os militares não sabiam em quê estavam se metendo...

PARTE 2 – A PALHOÇA NA ÉPOCA E A INVASÃO DOS CABELUDOS

8 – A PALHOÇA EM 1974
Palhoça era uma cidade pacata com ares de vila. A tranqüilidade da Palhoça contrastava com aqueles atribulados anos 60 e 70. Anos de revoluções poíticas, artísticas, comportamentais, tecnológicas, tempos de conflitos e guerras... enquanto o mundo parecia que ia acabar amanhã, na Palhoça o tempo parecia não passar.
Com exceção dos organizadores e de alguns pouco “antenados”, em sua maioria a população palhocense tratava o Festival como uma festa de bairro. O padre Neri anunciava o festival na missa, não imaginavam que a notícia do Festival havia se espalhado pelo Brasil e nos países vizinhos, empolgando uma geração de mochileiros dispostos a percorrer qualquer distância para celebrar a Liberdade.

9 – A CHEGADA DOS PRIMEIROS CABELUDOS
O festival estava marcado para acontecer dias 19 e 20 de outubro de 74, um final de semana de som ininterrupto. Mas já no início da semana que antecedeu o evento começaram a chegar os primeiros caroneiros vindos das mais distantes cidades: jovens cabeludos, despojados de bens materiais, vestindo roupas coloridas e com hábitos excêntricos para aqueles pacatos moradores daquela pacata cidade; o que de imediato causou um profundo assombro nos cidadãos mais conservadores.
Os viajantes foram alojados com suas barracas no local do evento, o campo do Guarani – mas como a cada dia chegavam mais e mais jovens (vindos no ritmo irregular das caronas – dias após o Festival ainda chegavam caroneiros na Palhoça), por isso fez-se uma reunião entre a comunidade, a Igreja, a Prefeitura, a Polícia e os organizadores. A Palhoça era apresentada a Contracultura: alguns vibravam com a novidade, outros se escandalizavam.
Os organizadores “abriram o jogo”, disseram que poderia haver consumo de drogas e a polícia garantiu que faria apenas a proteção sem repressão: eram jovens da paz. Tanto que ao final do evento nenhum incidente foi registrado – e apesar da multidão, nenhum flor foi arrancada da praça. E a população, que no início estranhou aqueles “jovens diferentes” aos poucos foram conquistados pela maneira gentil e alegre dos visitantes.

10 – A INVASÃO
Sábado foi O dia. A BR estava congestionado nos dois sentidos. Centenas de jovens ao longo da rodovia com trajes coloridos, pedindo carona. Todas as ruas da Palhoça ficaram entupidas de carros e de pessoas. A população da Palhoça dobrou de quantidade do dia para a noite.
Por falta de experiência dos organizadores faltou estruturar melhor a cobrança de ingressos: os jovens que já estavam acampados não quiseram sair para pagar o ingresso e muitos dos jovens que vinham não tinham dinheiro e acabaram pulando a cerca ou a nado pelo riozinho que cercava o gramado. A diretoria do clube Guarani, assustada com a multidão, tentou com a ajuda da Polícia evacuar o local, o que mostrou-se impossível diante da multidão. Àquela altura a situação já estava fora de controle. Apesar do sucesso do evento a bilheteria foi um fracasso – o que foi mais um paralelo em relação ao Woodstock (a invasão da multidão e o fracasso de bilheteria).

PARTE 3 – O FESTIVAL

11- A ABERTURA
Como estava combinado a abertura do Festival ficou a cargo da banda do exército. Foi um espanto de ambas as partes quando estacionou nos arredores do Estádio aquele ônibus cheio de militares. Mas ao invés de armas, eles portavam instrumentos musicais. E a banda do Exército levou um susto quando começou sua volta olímpica seguida e regida por milhares de hippies. Essa foi uma das cenas que mais marcou o Palhostock.
Após esse preparativo tudo podia acontecer. A essa altura o improviso tomara conta da organização. O festival devia prosseguir mas as bandas estavam receosas que tudo aquilo fosse uma “armadilha dos militares”. O músico Luiz Henrique Rosa desistiu do seu show, por exemplo. Mas foi só a primeira banda subir ao palco que começou a celebração e assim foi até o final do domingo.
Como o prometido era um fim de semana de som ininterrupto, além das mais de dez bandas contratadas, havia ainda a possibilidade de bandas e músicos se apresentarem no palco nos intervalos das apresentações; fato que provocou as apresentações mais espontâneas e malucas.

12- A PLATÉIA
O Palhostock foi um Festival musical em que a música não foi a protagonista: muito mais que o palco o Palhostock era o conjunto de coisas que aconteciam ao mesmo tempo, as mil e uma coisas que aconteciam ao mesmo tempo, seja no palco ou na platéia, um evento que justificou as palavras de ordem daquela geração: “paz e amor” e “sexo, drogas e rock’n’roll”.
Aqueles jovens de cidades tão distantes e distintas, que eram minoria em suas cidades de origem, descobriam que não estavam sós, que havia outros como eles, e que essa juventude tinha poder.

13 – NEM SÓ DE PÃO SE VIVE
Acontece que a Palhoça não estava preparada para tantas “bocas”. A comida e os cigarros sumiram da cidade rapidamente, o que serviu para dar mais um tempero ao festival, gerando dezenas de versões controversas de como tantas bocas foram alimentadas.
O fato é que os palhocenses, que a princípio olharam “desconfiados” aos novos visitantes, foram conquistados pela paz e o amor desses jovens:
- Uma multidão e nenhuma flor foi arrancada. Uma multidão faminta e nada foi furtado.
E a população, na sua simples hospitalidade dava frutas, leite, etc, que eram repartidos irmanamente entre eles.
A fome daqueles jovens era outra, pois nem só de pão vivem as pessoas.

14 – O ENCERRAMENTO
No domingo a chuva apareceu para lavar a galera; uns correram para debaixo do palco, outros em suas barracas e muitos tomavam banho de lama, banho de rio, peles nuas e bronzeadas; o Sol voltou e todos cutiram noite adentro, até a última fogueira apagar.

15 – O DIA SEGUINTE
Segunda-feira de manhã os 3 amigos foram acordados com a polícia convocando-os para prestar depoimentos, mais o prefeito e o Padre. Dias depois foram ouvidos, tudo esclarecido foram todos liberados. Não havia nenhum intenção política naquele Festival, apenas o desejo de reunir as pessoas para se divertir.
Mas aqueles 3 jovens, Jacob, Baldicero e Edgard, não eram mais os mesmos. E nem a Palhoça! Muitos daqueles jovens “diferentes” se encantaram com o litoral da Palhoça e por lá tentaram viver de maneira alternativa, uma comunidade foi fundada e esses novos moradores ajudaram a tornar a cidade mais plural e aberta. A Palhoça já não era mais tão “pura”, aquelas pacatas ruas haviam visto tanta coisa em tão pouco tempo... viram que as coisas estavam acontecendo no mundo e que também podiam acontecer na Palhoça, também estavam no mapa!
E quanto aos três amigos, não podiam mais voltar a vida de antes. Edgard e Jacob criaram uma produtora de shows e mais tarde Jacob, através da alquimia, descobriu a pintura, tornando-se um artista plástico com uma obra reconhecida.

16 – EPÍLOGO
Dois meses após o festival, Rita – a companheira de Jacob – deu a luz a uma menina.
Jacob foi registrar a filha, Edgard deu uma carona. Chegando ao cartório – marinheiro de primeira viagem – não sabia que nome dar a filha.
Voltou para o carro; Edgard ouvia “Angie” dos Rolling Stones. Jacob voltou correndo ao cartório:
- O nome da menina é Angie.

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